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Como a circulação das coisas afeta nossa percepção de tempo? uma meditação pós-pandêmica.

Bruno Capilé

A circulação das coisas sempre foi tema dos assuntos da humanidade. As tropas de qualquer exército precisam saber circular com rapidez, eficiência e segurança. As informações necessitam chegar ao seu destinatário, se possível, sem modificações ou interrupções. O modo como queremos e como conseguimos a circulação das coisas está fortemente associado às expressões culturais de grupos sociais distintos em tempos diversos. Ela afeta profundamente a maneira como percebemos e nos relacionamos com o próprio tempo. No início do século XXI (em particular neste encontro da globalização, neoliberalismo e a pandemia do covid-19), estamos presenciando uma possível transformação na maneira como percebemos a circulação das coisas, sejam pessoas, produtos ou informações digitais. 

Observe o cotidiano das pessoas nos últimos séculos. Em um momento no início do século XIX, por mais rico que fosse, um indivíduo teria ao seu alcance diferentes tipos de carruagens e navios a vela ou remo, para circular uma infinidade de coisas materiais pelo mundo. Fato que ocorreu de maneira cada vez mais intensa desde o início da era moderna, especialmente as grandes navegações no século XV. As tecnologias deste momento permitiam que uma caravela cruzasse o Atlântico em uns 90 dias, transportando pessoas, materiais e informações, além de vírus e bactérias. No início do século XIX, o aperfeiçoamento da navegação conseguiu diminuir este tempo em 50 dias com as tecnologias à vela. Neste mesmo século, o início da tecnologia de motores à vapor apequenou essa distância temporal por volta de 20 dias. O mesmo se deu com a inovação do transporte ferroviário. Os navios e trens atuais, e, é claro, os aviões, são bem mais eficientes e velozes que antigamente.

Em relação à informação, antes circulava em papéis (cartas, ofícios, jornais, etc.) a bordo dos navios e trens com o tempo percebido em semanas. O suporte infraestrutural dos telégrafos e sua codificação permitiram que essa velocidade fosse ridiculamente menor, alguns minutos. Atualmente, uma informação demora menos de um segundo para atravessar a mesma distância que o antigo rei português demorou uns cinquenta dias. A rapidez da circulação das informações não só dava vantagem estratégica nos negócios, na guerra ou no amor. Ela mudava a maneira que os indivíduos percebiam o tempo. Será que eles ficaram mais apreensivos com a demora de uma carta do namorado? Será que ficaram mais apavorados com a demora no envio do pedido de mantimentos e remédios?

No século XX, a velocidade da circulação da informação aumentou, assim como seu alcance. O rádio, a televisão e as tecnologias digitais, tornaram a circulação mais abrangente, massiva, acessível. Dando uma visão unificada para grupos, fortalecendo o nacionalismo, movimentos identitários, comportamentos de consumo. Por um lado, o aumento do protagonismo social das massas, com as redes sociais e outras interfaces de produção e divulgação de informação, transformou países, derrubou governos, forneceu esperança. Por outro lado, a indústria de automatização de perfis falsos e a geração de fake news explicitou um lado perverso se apropriando das tecnologias digitais. O início da era digital e do aumento exponencial da circulação veio acompanhado de estratégias públicas e privadas de contenção de vírus de computador, malwares, trojans e outros perigos virtuais.

Rede das milhares de linhas aéreas sobre mapa do mundo. Arte realizada com Gephi a partir de dados da OpenFlight.org

Nas cidades, o conceito de circulação das pesquisas biológicas de William Harvey foi incorporado pelo coletivo de urbanistas dos séculos XVIII e XIX. A cidade tinha que fluir em trânsito de pessoas, mercadorias, águas. O sistema hídrico urbano fluía dos rios e aquedutos (e encanamentos) para o metabolismo da cidade e seus habitantes e voltavam aos canos, cloacas, rios e oceanos. Inclusive para as teorias médicas da época, tudo havia de circular e sua ausência indicava algum problema, alguma doença. A medicina social, surgida em meio ao crescimento urbano e de epidemias, defendia a livre circulação das coisas materiais. A emergência lasciva e atroz do capitalismo nos séculos seguintes reforçaram a noção de circulação das coisas, especialmente o dinheiro. E foi no ambiente urbano, uma das maiores expressões da humanidade global, que o poder financeiro suplantou o poder industrial e o político. Assim, a especulação do poder financeiro de acionistas e outros poucos tomadores de decisão degringolaram a estrutura social e econômica em uma série de cíclicas crises capitalistas.

Tudo ia bem para que nosso século XXI mantivesse e reproduzisse esse paraíso neoliberalista de ganhar dinheiro em cima do Estado e ter o Estado para evitar a falência das grandes empresas. Até a chegada de uma pandemia do covid-19. Pela falta de vacina, e buscando evitar a saturação dos sistemas de saúde, a ideia principal é que as pessoas não circulem. A falta dessa circulação evita o contágio e salva vidas, mas impede a realização de uma série de serviços que movimentam a engrenagem da economia planetária. Com a tecnologia, como o teletrabalho ou os serviços de entrega, é possível que algumas consigam trabalhar. Porém, em áreas como o turismo, arte, educação e muitos setores industriais, vemos que neste momento não há o que fazer. Misturados com o pandemônio social dos saudosistas do tempo das torturas, a pandemia veio agravar a realidade sanitária brasileira. Precisamos evitar aglomerações e circular menos. Nesse sentido, valeria nos indagar que tipo de Estado queremos para nossa sociedade: um que seja fraco e permita a livre circulação das coisas, ou um que seja forte e ordene/controle a circulação?

Sobre a velocidade da circulação da informação, como nossa relação com o tempo se transformou nos últimos séculos? Como se dava a nossa ansiedade em esperar por meses uma carta de quem amamos? Como ela se dá quando se passam poucos minutos de uma mensagem visualizada e sem resposta nos aplicativos de conversa? Vemos que nossa saúde psicológica parece não ter acompanhado com a mesma velocidade. Especialmente se vermos o crescimento de alguns distúrbios de nossa psiquê como a ansiedade, o medo de perder alguma informação (fear of missing out – FOMO), a depressão, etc. E se pensarmos na segurança dessa circulação, vemos que os governos e as grandes corporações estão cada vez mais interessados em coletar nossas informações, por vias lícitas ou não. O debate atual sobre a Lei Geral de Proteção de Dados garante que o cidadão saiba como suas informações pessoais serão utilizadas, por onde circularão. Ansiamos que o Estado regule o uso destes dados e assim ordene a circulação da informação.

Há poucos meses, a coação do Estado em restringir a livre circulação de grupos sociais indesejados pela violência policial era fortemente combatida. Agora, torcemos para que o Estado seja eficiente no controle da circulação das pessoas, no isolamento social para amenizar os efeitos da pandemia. Assim como queremos que as instituições estatais combatam mais eficazmente a circulação de fakes news e negacionismos, para amenizar os efeitos do pandemônio brasileiro. Mas precisamos nos perguntar como queremos que o Estado ordene a circulação de pessoas e de informação? Como que esta noção de circulação em tempos covídicos se relaciona com a futura noção de circulação pós-pandemia?

No momento do isolamento social pandêmico, os dias em casa são marcados de maneira diferente dos antigos domingos que terminavam repentinamente numa segunda feira. Observamos o fluxo e a circulação das coisas materiais com maior atenção. Antes era como a metáfora de Alice em que era preciso correr muito para ficar no mesmo lugar. Agora, redescobrimos antigos barulhos urbanos esquecidos no canto dos bem-te-vis e maritacas, nos admiramos com vídeos de animais silvestres reocupando cidades agora vazias. Como a atual geração será marcada por esse evento, e como novos modelos de circulação afetarão os comportamentos sociais do futuro pós-pândemico?

 É no fluxo dessa reflexão que sintonizo com o raciocínio de Lilia Schwarcz de um longo século XXI. Ela se inspirou no século de 125 anos entre a Revolução Francesa (1789) e o início da Primeira Guerra Mundial (1914) que Eric Hobsbawm denominou de longo século XX. Segundo ela, o longo século XXI começaria após a pandemia. Tenho a convicção de que com as mudanças comportamentais e tecnológicas no pós-pandemia, novas relações sociais se darão, dando uma nova noção de tempo que pode marcar este novo século que ainda virá. E nele, como que nos sentiremos com a expectativa de que uma coisa específica circule ou deixe de circular? Qual o futuro da circulação das coisas no século XXI que virá?

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